Cárcere por cinco anos: condenado por crime no Paraná ficou oito vezes menos tempo preso do que manteve mulher trancada em casa
30/03/2026
(Foto: Reprodução) Paraná registra 1 caso de cárcere privado a cada 15 horas
Jean Machado Ribas, condenado por manter a companheira em cárcere privado em Itaperuçu, na Grande Curitiba, ficou preso por cerca de sete meses e atualmente está no regime semiaberto. O tempo cumprido é oito vezes menor do que os cinco anos que Jean manteve a então companheira trancada em casa em contexto de violência doméstica.
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O caso veio à tona em março de 2025, quando a vítima foi resgatada com o filho de 4 anos após conseguir enviar um e-mail pedindo ajuda à Casa da Mulher Brasileira. Relembre abaixo.
Duas semanas antes, a mulher havia tentado pedir ajuda deixando um bilhete de socorro em um posto de combustíveis, mas nem ela e nem o marido foram encontrados.
Mulher também pediu socorro por meio de bilhete entregue em posto de combustíveis há 15 dias
PMPR
Após ser salva, a mulher concedeu uma entrevista exclusiva à RPC, afiliada da TV Globo no Paraná, e relatou o cenário de violência que vivia. À época, ela contou que Jean a agredia com socos e dizia que se ela fugisse, ele a mataria.
"Eu tive quatro celulares, e os quatros ele quebrou. Porque eu mandava mensagem para a minha família pedindo ajuda e ele quebrava. E lá pela família dele, eles me chamavam de louca, sabe? Que era coisa da minha cabeça. Porque na frente das pessoas ele não fazia isso, era só em casa."
No dia do resgate à vítima, Jean foi preso em flagrante, interrogado e liberado. Na sequência, fugiu. Após 29 dias foragido, se entregou à polícia, em abril de 2025.
Depois que Jean se entregou à polícia, o caso passou a ter uma sequência de prisões e solturas. Veja linha do tempo:
Abril de 2025: Jean se entrega à polícia e passa a cumprir prisão preventiva;
Abril a novembro de 2025: Permanece preso por cerca de sete meses;
Novembro de 2025: É condenado a seis anos de prisão em regime semiaberto e colocado em liberdade pouco tempo depois;
Uma semana depois: Volta a ser preso.
Janeiro de 2026: É solto novamente após conseguir o direito de cumprir a pena em regime semiaberto com tornozeleira eletrônica.
O processo contra Jean está em fase de recurso.
O Ministério Público do Paraná (MP-PR) pediu a revisão da pena por descumprimento de medida protetiva, o que elevaria a condenação para mais de 10 anos em regime fechado. O MP também pediu a prisão imediata de Jean porque, segundo o órgão, há uma decisão judicial para que ele permaneça preso. O pedido foi aceito pela Justiça e Jean pode ser novamente enviado ao sistema prisional a qualquer momento.
"Os autos de execução penal foram encaminhados ao Juízo de Castro, onde atualmente o réu reside. A 2ª Promotoria de Justiça de Rio Branco do Sul, assim que cientificada a respeito da situação, requereu o imediato cumprimento da ordem de prisão vigente junto ao Tribunal de Justiça, o que foi deferido. Aguarda-se no momento a adoção de providências pelo Juízo de Execução Penal de Castro", explicou o MP.
O g1 fez contato com a defesa de Jean, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.
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Vítima era monitorada por câmera
Vítima era monitorada por câmera
Reprodução/RPC
Quando foi resgatada, a vítima contou à polícia que Jean a vigiava por meio de uma câmera de segurança. A mulher relatou ainda que o homem não a deixava contatar outras pessoas se ele não estivesse presente, e que o filho de 4 anos do casal também vivia preso dentro de casa e presenciava agressões que ela sofria.
A vítima afirmou que não tinha celular e só tinha acesso a um aparelho que era usado em conjunto com o homem. Disse, também, que foi amarrada e asfixiada pelo homem em diversas ocasiões.
Ela foi resgatada com hematomas e também contou que foi ameaçada de morte caso contasse a alguém o que estava acontecendo dentro de casa.
PR registra caso de cárcere privado a cada 15 horas
A cada 15 horas, um caso de cárcere privado é registrado no Paraná. Em 2025, foram 582 ocorrências no estado, segundo a Secretaria de Segurança Pública. No contexto da violência doméstica, a legislação prevê penas mais rigorosas.
Segundo a delegada Emanuele Maria de Oliveira Siqueira, o crime nem sempre acontece de forma explícita e pode incluir formas de controle psicológico.
"Às vezes a mulher não está impedida de sair ou de ter acesso ao celular, mas apesar dela não estar com essas limitações físicas, ali visuais, ela tem um cárcere psicológico, porque o agressor ameaça ela constantemente", explica.
Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostram que, em 2025, foram registrados 4.176 processos por sequestro e cárcere privado no Brasil, um aumento de 12,7% em relação a 2024, quando houve 3.703 casos.
Em janeiro de 2026, foram 361 novos processos no país, o equivalente a um registro a cada duas horas.
A delegada destaca os impactos emocionais desse tipo de violência e orienta sobre sinais de isolamento que devem acender o alerta para pessoas próximas.
"O abalo emocional que os crimes contra a mulher traz são muito grandes, e nos casos de cárcere, a gente acaba observando um pânico, um medo constante [...] O vizinho vê que essa mulher só fica fechada dentro de casa, vê chegar e não vê sair, que não tem nenhuma movimentação, pode às vezes chamar o 190, o 153, porque o cárcere privado é um crime permanente", conclui.
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