Caso real de jovem violentada por colegas é tema de peça no Festival
12/03/2026
(Foto: Reprodução) Um caso real de violência contra a mulher ocorrido no interior de São Paulo nos anos 80 inspira o espetáculo “Reparação”, destaque da Mostra Lucia Camargo da 34ª edição do Festival de Curitiba. A peça será apresentada nos dias 31 de março e 1º de abril, às 20h30, no Teatro Sesc da Esquina.
Com direção e dramaturgia de Carlos Canhameiro, o espetáculo reconstrói a história de uma jovem violentada por dois colegas de escola que, após engravidar, é obrigada pela própria família a deixar a cidade para ter o filho em outro lugar. Anos depois, ela retorna para apresentar a criança ao pai, num reencontro que coloca em choque passado e presente.
A montagem combina depoimentos reais com cenas ficcionais para discutir como a memória coletiva se forma em torno de episódios traumáticos. Segundo Canhameiro, os relatos usados na dramaturgia são resultado de um processo de pesquisa que incluiu entrevistas com moradores e pessoas ligadas ao caso.
“No início da peça é anunciado que os relatos são transcrições de entrevistas realizadas até 2016 e que não serão citados os nomes, a cidade, nem o caso em si”, explica o diretor.
Ao longo da narrativa, o espetáculo acompanha duas fases da vida da protagonista separadas por seis anos, mostrando que as consequências da violência vão muito além do momento em que ela acontece.
“A violência não termina quando ocorre. Ela continua produzindo efeitos sociais, afetivos e simbólicos ao longo do tempo”, afirma Canhameiro.
A ambientação, com música e referências dos anos 80, cria um contraste entre a familiaridade do ambiente e a gravidade da narrativa.
Divulgação: Mariana Chama
Memória, ficção e confronto
A dramaturgia reúne 23 depoimentos reais entrelaçados com quatro cenas ficcionais, criando um jogo entre documento e imaginação. A intenção, segundo o encenador, não é apresentar uma versão definitiva dos fatos, mas revelar como diferentes perspectivas moldam a memória coletiva.
“A peça não tenta resolver a história. Ela coloca o espectador diante de um assunto incômodo e provoca um confronto”, diz.
No palco, a história se passa em um salão de beleza estilizado dos anos 80, espaço cotidiano que serve de cenário para conversas, julgamentos e lembranças. A ambientação, com música e referências da época, cria um contraste entre a familiaridade do ambiente e a gravidade da narrativa.
O resultado, segundo o diretor, é uma experiência que pode ser ao mesmo tempo afetiva, nostálgica e perturbadora.
Teatro como espaço de reflexão
Para o ator Luiz Berttazzo, que integra o elenco, o espetáculo amplia a discussão sobre violência para além do fato em si.
“O teatro transforma essa tragédia em outras possibilidades de pensamento. A história de uma menina violentada se expande para discutir relações de poder, misoginia e como esses comportamentos aparecem também na arte e na política”, afirma.
O ator Luiz Bertazzo volta a Curitiba com “Reparação”, cidade onde viveu por 17 anos e construiu parte de sua carreira.
Divulgação: Mariana Chama
Berttazzo também destaca a importância de apresentar o trabalho em Curitiba, cidade onde viveu por 17 anos. Para ele, participar da principal mostra do festival representa um reencontro simbólico com o público local.
“Estar agora na Mostra Lucia Camargo do Festival de Curitiba, numa cidade onde construí parte da minha carreira, é muito gratificante”, diz.
Identificação do público
Desde a estreia, em setembro de 2025, em São Paulo, a montagem tem provocado forte reação da plateia. Segundo Canhameiro, muitos espectadores relatam reconhecer na história situações semelhantes vividas por pessoas próximas.
“Isso é sempre triste, porque mostra que essa narrativa se repete na vida de muitas pessoas. Ao mesmo tempo, esses relatos mostram como o teatro pode ser um espaço coletivo para elaborar essas experiências”, afirma.
Ao trazer à cena um episódio inspirado em fatos reais e suas repercussões ao longo do tempo, “Reparação” propõe uma pergunta central ao público: diante de histórias como essa, o que poderia significar, de fato, uma reparação?
Serviço:
Reparação - Mostra Lucia Camargo
34º Festival de Curitiba
Data: 31 de março e 1 de abril, às 20h30
Local: Teatro Sesc da Esquina - Rua Visconde do Rio Branco, 969, Centro
Classificação: 16 anos
Duração: 105 min
34º Festival de Curitiba
Data: 30 de março a 12 de abril
Valores: de R$ 0 a R$ 85 (mais taxas administrativas)
Ingressos: www.festivaldecuritiba.com.br e na bilheteria física exclusiva no Shopping Mueller (Av. Cândido de Abreu, 127 – Piso L3, Centro Cívico. De segunda a sábado, das 10h às 22h; domingos e feriados, das 14h às 20h).