Mais de 50 famílias indígenas reassentadas no Paraná bebem água de riachos por falta de abastecimento em área comprada pela Itaipu

  • 01/05/2026
(Foto: Reprodução)
Famílias indígenas bebem água de riachos por falta de abastecimento Mais de 50 famílias indígenas estão consumindo água de riachos devido ao abastecimento insuficiente em uma área de 220 hectares em Terra Roxa, no Oeste do Paraná. A área, conhecida como Fazenda Brilhante, foi adquirida pela Itaipu Binacional em agosto de 2025 como parte de um acordo histórico homologado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para reparar danos causados pela construção da usina hidrelétrica entre 1975 e 1984. ✅ Siga o g1 Foz do Iguaçu no WhatsApp Segundo as lideranças das comunidades, o fornecimento atual não atende às necessidades das famílias. Um caminhão-pipa abastece as aldeias Tekoha Koenju, Yvyratã Porã e Arapoty duas vezes por semana, com cerca de seis mil litros por comunidade em cada entrega. A água atende todo tipo de atividade: consumo, banho e preparação de alimentos, por exemplo. Ao todo, são aproximadamente 36 mil litros semanais para 56 famílias, o que representa que cada pessoa pode utilizar, em média, cerca de 20 litros de água por dia — volume abaixo do mínimo recomendado pela Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar), que é de 100 litros. Famílias usam água de riacho para se alimentar e tomar banho Imagens cedidas: LAET/ UNILA Em março de 2025, no acordo homologado com o STF, a Itaipu se comprometeu a oferecer infraestrutura básica aos indígenas assentados nas terras adquiridas. No entanto, oito meses após a primeira compra, os moradores recorrem a fontes improvisadas para ter acesso a água potável. “Quando a água acaba, descemos no rio para pegar água e usar para fazer comida para as crianças. Estamos passando muita dificuldade”, afirmou o líder indígena Osvaldo Ajala, da aldeia Tekoha Koenju. Em nota, a Itaipu Binacional informou que atua em parceria com o município de Terra Roxa e com a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) para buscar uma solução, com previsão de obras a melhorar a distribuição de água. Leia ao final da reportagem. Leia também: Consulta no ChatGPT: Família descobre que criança era vítima de abuso sexual após ver pergunta dela para IA Dentro de potes: Ampolas de tirzepatida são encontradas em carregamento de doce de leite Ponte de Guaratuba: se estrutura leva a Matinhos, por que ficou conhecida pelo nome de uma cidade só? Falta de água denunciada por pesquisadores Caixa d'água de seis mil litros não é suficiente para abastecimento da aldeia. À esquerda, imagem mostra equipamento cheio; à direita, vazio. Imagens cedidas: LAET/ UNILA A falta de água na comunidade indígena foi denunciada no fim de abril em um ofício produzido pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), por meio do Laboratório Etnoterriorial, no âmbito do Observatório da Temática Indígena na América Latina (Obial). O documento foi feito por uma equipe de pesquisadores que estavam em trabalho de campo. Segundo Clóvis Antonio Brighenti, que pesquisa e acompanha a comunidade, a falta do abastecimento de água deveria estar resolvida. "Esperamos que eles sejam atendidos da mesma forma que outros cidadãos paranaenses, com os 120 litros diários por pessoa [...] É preciso garantir condições mínimas de sobrevivência para essas famílias, especialmente neste momento de reconstrução de suas vidas, senão a situação vai gerando um adoecimento", afirmou. Água de rio pode estar contaminada e imprópria para uso Imagens cedidas: LAET/ UNILA O ofício foi enviado à Defensoria Pública do Estado do Paraná (DPE-PR), Defensoria Pública da União (DPU) e ao Ministério Público Federal (MPF) e compilou registros dos pesquisadores, que estiveram em cinco áreas indígenas Avá-Guarani em Terra Roxa e Guaíra. O documento traz fotos que mostram caixas d 'água vazias e solicita providências à Secretaria Nacional de Saúde Índigena (Sesai), que é o órgão responsável pela assistência à saúde e saneamento e solicita que o órgão oferte ao menos 100 litros de água por pessoa/dia. A Defensoria Pública do Paraná informou que abriu um procedimento para apurar as condições de acesso à água nas comunidades indígenas da região. O órgão informou que mantém contato direto com as lideranças para acompanhar o caso. O Conselho Indigenista Missionário (Cimi), que também esteve no território, informou que vê com preocupação a situação. "Para gente foi um espanto ver as caixas d´água dos Avá-Guaranis sem água. A gente percebe esse descaso dos órgãos públicos em garantir o que é básico, que é água para sobrevivência física deles", disse Osmarina Oliveira, missionária do Cimi. Há quase um ano, relatório alertou sobre o problema Em agosto de 2025, um relatório produzido pelo Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) e do Comitê Brasileiro de Defensoras e Comitê Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos (CBDDH) alertava autoridades sobre uma série de violações de direitos, inclusive, sobre a falta de água. “A missão realizada pelo CNDH e pelo Comitê Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos com os Avá-Guarani do Oeste do Paraná encontrou um cenário alarmante de violações sistemáticas aos direitos humanos, que vão desde ataques armados, racismo e criminalização, até a negação de direitos básicos como saúde, educação, alimentação adequada e acesso à água potável”. O relatório reportou que "a Sanepar reconheceu durante a visita a insuficiência no abastecimento de água, admitindo a existência de um problema que afeta a dignidade humana". Por fim, o documento recomendou à Sanepar a compra de caixas d'água de 15.000 litros para as áreas e aumento da frequência de abastecimento. Sobre a recomendação, a Sanepar informou que o acordo feito com o Ministério Público e órgãos ligados aos indígenas foi para o abasrecimento com caminhão-pipa duas vezes por semana. E a companhia está cumprindo com o que foi acordado. Denúncias de contaminação Pesquisadores pesquisam qualidade da água Imagens cedidas: LAET/ UNILA Além da falta de água, lideranças indígenas relatam preocupação com a qualidade das fontes disponíveis. Segundo eles, os riachos passam por áreas de lavoura e podem estar contaminados por agrotóxicos. Também há relatos de descarte de animais mortos próximos às nascentes. “Tem um rio perto da aldeia, mas não dá para usar. A água é muito contaminada, principalmente por veneno [agrotóxicos]. Já jogaram animais mortos ali. Por isso nossa situação é muito difícil, precisamos de água de qualidade”, disse o cacique Anildo Vinhale, da Tekoha Arapoty. No ofício produzido por pesquisadores da Unila, há denúncias e fotos com fotos de caixas d´água expostas, sem tampa ao lado de plantações de milho. O grupo de pesquisadores também fez coletas nas comunidades para identificar a presença de glifosato nos riachos e também nas caixas d´água. Os resultados ainda não foram divulgados. Caixa d'água está ao lado de plantações Imagens cedidas: LAET/ UNILA Em relatório, a Comissão Nacional de Direitos Humanos também mencionou relatos sobre pulverização irregular de agrotóxicos "atingindo pessoas, animais, plantações e fontes de água, o que representa uma ameaça à vida, à saúde e ao bem-estar dos indígenas”. Em relação às denúncias de possível contaminação das fontes de água, a Itaipu disse ao g1 que mantém acompanhamento contínuo da situação, em articulação com os órgãos competentes, com adoção de medidas de verificação e encaminhamento sempre que necessário. Soluções para a distribuição de água em andamento Segundo a Itaipu, está em fase de formalização um convênio para construção de três poços artesianos nas comunidades, além da instalação de reservatórios e sistemas de distribuição de água. Enquanto a solução definitiva não é implementada, a usina afirma que medidas emergenciais estão sendo adotadas, como o fornecimento de caixas d’água e o abastecimento por caminhões-pipa. A Itaipu também destacou dificuldades estruturais na área, como a ausência de rede elétrica e a distância de sistemas públicos de abastecimento. A Prefeitura de Terra Roxa informou que as aldeias recebem água potável por meio de abastecimento vinculado à Sanepar e reforçou que há projetos para perfuração de poços. A Sanepar informou ao g1 que, por meio de acordo com Ministério Público, ajustou a disponibilização de abastecimento de água com caminhão-pipa duas vezes por semana para atender as aldeias indígenas. Informou ainda que está à disposição dos órgãos públicos para tratar de ajustes em relação a este acordo. O g1 questionou a Sesai e o Ministério dos Povos Indígenas sobre o fornecimento de água potável para as comunidades e esclarecimentos sobre atendimentos de saúde das famílias, mas não teve retorno até a publicação desta reportagem. VÍDEOS: Mais assistidos do g1 Paraná Leia mais notícias em g1 Oeste e Sudoeste.

FONTE: https://g1.globo.com/pr/oeste-sudoeste/noticia/2026/05/01/familias-indigenas-falta-de-abastecimento.ghtml


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